// DOS BICHOS (2016)

Convento de S. Francisco | 8 e 9 de ABRIL | COIMBRA

texto BICHOS de MIGUEL TORGA dramaturgia e encenação JOÃO BRITES 
música LUÍS PEDRO FAROJORGE SALGUEIRO espaço cénico RUI FRANCISCO e JOÃO BRITES
figurinos e adereços CLARA BENTO e FÁTIMA SANTOS desenho de luz JOÃO CACHULO desenho de som SÉRGIO MILHANO                     

elenco BIBI GOMES, CÂNDIDO FERREIRA, FÁTIMA SANTOS, F. PEDRO OLIVEIRAGUILHERME NORONHA, HORÁCIO MANUELJOÃO NECA, JOÃO SEBASTIÃOJULIANA PINHO, PAULA SÓ, PEDRO LAMAS, POMPEU JOSÉRAUL ATALAIARITA BRITO e RUI COSTA

participação BANDA FILARMÓNICA UNIÃO TAVEIRENSE maestro JOÃO PAULO FERNANDES 

SINOPSE

São BICHOS. Bichos pelo corpo todo, pela voz cessante de humanidade, pela interioridade consciente de uma barca que há-de partir. 

Em DOS BICHOS embarcaram quase todos. Uns fugiram à custa dos medos de não seguir o rebanho humano. Outros esconderam-se na memória, indiferentes ao chamamento do grito. DOS BICHOS pouco sabemos. Envelheceram com o passar dos anos ou, pincelados de barro, recuperaram as juventudes todas da criação? Estacionada nas águas do Mondego, a barca ainda espera por eles. Lá dentro, pelos corredores do Convento, nas fachadas, entre muros de cimento armado, os BICHOS refugiam-se da viagem prometida. 

Em nome da dignidade e liberdade de serem Bichos, as criaturas renascem em duas noites de sobrevivência e insubmissão pelo direito a serem livres e autênticos no chão natural em que se enraizaram.  As portas do Convento reabrem, e os personagens deste Bestiário prometem ser os guias da via revisitada em Bando pelas estações dos contos de Torga. 

É a nossa forma de termos ainda brilho nos olhos e de tentarmos encontrar os outros.

anteontem, estreia em 1990

.A 3 de Agosto de 1990, no Convento do Beato, em Lisboa, estreava a 35ª criação do Teatro O Bando.

BICHOS foi um acontecimento teatral marcante em Portugal nesse ano e nos que se seguiriam e aconteceu numa época particularmente difícil para o grupo. A sala onde O Bando residia, na Comuna, tinha ardido totalmente em Abril desse ano e com ela levou praticamente todo o cenário de "A Terceira Margem do Rio”, estreado posteriormente numa Sala do Teatro Nacional D. Maria II. No programa de BICHOS, João Brites afirmava assim a vontade de levar avante o projecto "Apetecia-nos criar os BICHOS agora! Pronto! Queríamos! Esse é o nosso caminho. É burrice. Mas é a nossa cruz. É a nossa batalha louca.”.

Sem casa própria, o Bando estreou o espectáculo no Convento do Beato, integrado nas Festas de Lisboa e numa co-produção com a Câmara Municipal de Lisboa. A crítica teatral que, à época, tinha muita voz nos meios de comunicação social do nosso país, foi unânime na aclamação à encenação de João Brites, com música de Luís Pedro Faro e direcção de actores do polaco Kot Kotecki.

Fernando Midões afirmava no Diário de Notícias que os BICHOS, e através deles O Bando, teriam sido "o acontecimento teatral do ano”; Jorge Listopad, no habitual espaço que dispunha no Jornal de Letras, dissecava assim a "arca de noé encalhada”: "Integra muito: orquestra, o lado irónico-operático, os actores e os hábeis, as ovelhas vivas: quanto mais vivas são, mais surreais no meio do artefacto simbólico-leigo.”; Maria João Brilhante, no Público, evidenciava que "grande parte do fascínio dos trabalhos do grupo se prendia com a descoberta pelo espectador das potencialidades de expressão dos corpos e dos objectos, nunca redundante em relação ao sentido dos textos”; e Fernando Porto falava "de um espectáculo formidável que deve ser visto naquele espaço (Convento do Beato) porque fora dali será outro espectáculo.”

E se foi no Convento do Beato que chamou as atenções de público e imprensa, foi em itinerância e nas várias adaptações a diferentes espaços, mais ou menos teatrais, mais ou menos convencionais, que os BICHOS se perpetuaram na memória de milhares de espectadores que assistiram às mais de 60 apresentações em Portugal e no estrangeiro. Lá fora, destacam-se as deslocações a Itália, à Alemanha, ao Brasil e à Bélgica, esta última no âmbito do Festival Europália 91. Dentro de portas, foi marcante a adaptação no Teatro da Trindade e os espectáculos ao redor da Sé da Guarda e nas Ruínas do Convento S. Francisco em Coimbra, no âmbito da Bienal Universitária de Coimbra de 1990.

ontem, 1990 em Coimbra

A 23 de Novembro de 1990, numa sexta feira chuvosa, a Bienal Universitária de Coimbra preparava-se para receber as últimas apresentações da programação desse ano. Depois do impacto dos espectáculos de BICHOS em Lisboa, Setúbal e Guarda, era grande a expectativa para saber como a cidade onde vivia Miguel Torga, ia receber os 24 artistas, entre actores, músicos e figurantes que compunham o elenco do espectáculo.

O autor transmontano, com 83 anos de idade na altura, era motivo de destaque na tarde dessa sexta-feira. O Goethe Institut (Casa Alemã de Coimbra) homenageava-o numa sessão pública por ocasião da tradução de grande parte da sua obra para a língua germânica. À noite, teve lugar a 1ª apresentação dos BICHOS (havia outra sessão marcada para o dia seguinte) e esse momento teatral foi assim descrito pela crítica Anabela Mendes para o jornal Público: "Quanto a "Os Bichos”, meu Deus, que assombração! Por eles e só por eles valeu a pena voltar a Coimbra. Na noite de 6ª feira, nem a torrencial chuva impediu que mais de mil espectadores assistissem, parcamente sentados e com os ossos a tremer de frio, a um espectáculo que ficará na história do teatro português e da Bienal. A representação, em perigo devido a constantes falhas de luz, nunca foi interrompida, ganhando outras dimensões e ritmos desconhecidos pela técnica. Bichos e homens foram objectos de tratamento único que só a arte de João Brites conhece. Os actores de O Bando deram ao Convento com os seus corpos e vozes, com a sua música, um registo absolutamente singular. Imprimiram-se em todos os lugares, mesmo os mais imagináveis, as marcas de um Teatro que em cada criação mais próximo está da Criação. Já as palmas se ouviam por toda a nave principal, quando de entre os espectadores se elevou um homem longo, seco e cinzento. Os seus passos levaram-no aos actores. Mais de quinze minutos de aplauso saudaram Miguel Torga entre "Os Bichos” de Teatro.”

A passagem do Bando por Coimbra, foi referida pela organização da BUC como um "clarão” pela "fruição de uma das criações mais ousadas que o país já conheceu.”

hoje, 8 e 9 de abril de 2016

Tal como em 1990, é também numa sexta-feira que O Bando regressa a Coimbra, ao Convento de S. Francisco, a Miguel Torga e aos Bichos. 25 anos depois do marcante espectáculo nas ruínas do Convento, inauguramos o Centro Cultural e de Congressos S. Francisco com a apresentação de uma versão desta encenação de João Brites que irá juntar em cena actores da versão original, actores mais jovens que neste momento fazem parte da equipa Bando, 2 actores naturais de Coimbra, figurantes e dezenas de músicos membros da Banda Filarmónica de Taveiro.

Será uma revisitação. A memória, ou para alguns, o mito ficou nos anos 90. Por isso este DOS BICHOS, porque voltar aos "Bichos” é reinterpretá-los à luz dos tempos de hoje, de um espaço renovado como é o Convento, contrastando com as ruínas que serviram de cenário ao espectáculo original. O resto, é Torga, e infelizmente, já não podemos partilhar o palco com ele.